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"concha de areiA" foi uma série exibida na exposição coletiva "geografias do corpo" na abertura da casa proeza, no rio de janeiro com curadoria de gabriela toledo

"O olhar fotográfico de Bá Rosalinski investiga as transformações do corpo feminino ao longo da vida por meio de seus afetos, memóriase decisões sobre si mesma.Essa pesquisa se dá por meio da apropriação de imagens do arquivo fotográfico herdado de sua avó Nair — registros da família realizados entre asdécadas de 1950 e 1970,na praia do Leme.Ao revisitar essas imagens, Bá questiona os modos de representação da mulher, especialmente por meio das poses, que naquele período correspondiam a padrõesde comportamento específicos — em particular no contexto da fotografia amadora. A artista cria um paralelo com sua geração — e com ela própria —,que busca outras experiências existenciais e realizações pessoais que não se restringem à maternidade ou à configuração da família tradicional.Nas fotografias contemporâneas que compõem o seu trabalho, as mulheres não olham diretamente para a câmera. Existe um rompimento em relação ao modo como devem ser vistas e uma preocupação quantoa serem julgadas por um olhar externo. Ali estão corpos de diferentes idades à vontade no mundo. As cartas e os instantâneos de Bá criam uma narrativa para as suas obras que traz lembranças das vivências em viagens, momentos de diversão e relações afetivas com amigas e amores. "  - Gabriela Toledo

Série que venho construindo nos últimos anos que abriga 8 fotografias inéditas, acompanhadas de textos meio ficcionais, meio autobiográficos que escritos como memórias, ecoando o modo como a fotografia era utilizada antigamente e fotos de arquivos de família ampliados que deram origem a pesquisa da série. 

 

Entre retratos silenciosos e papéis esquecidos, guardamos o que o tempo não levou. Fragmentos de mulheres que viveram, amaram, tentaram e contemplaram. Aqui, suas vozes ganham corpo nas imagens e nas palavras que deixaram para trás. Essas fotos não são sobre começos nem fins, mas sobre o meio: o que se vive entre o nascer e o desaparecer.”

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Mar de agosto, 2024.

 

Paula dizia que cada verão era o último, mas sempre voltávamos.

Naquela tarde, juramos que velhice era só um modo mais lento de dançar

A gente veio antes das crianças nascerem, e depois que os amores se foram.

Viemos quando tínhamos tempo e quando não tínhamos nenhum.

Daniela perdeu o chinelo de novo.

Rafaela disse que era sinal de sorte.

Agora viemos porque, se não viéssemos, o sentido ia se perder.

A gente se prometeu: quando uma for, as outras vêm jogar as cinzas no mar.

 

Guarda essa foto, Lara.

Um dia você vai entender a sorte que é ter amigas que atravessam o tempo com você.

Último mergulho, 1º de maio de 2025

Voltei naquela praia onde a gente costumava ir naquele verão.

O mesmo em que você disse que não dava mais mas ainda ficou molhado comigo, até o sol começar a se pôr em outro lugar e a água perder o calor do dia.

Aquele onde você quase mergulhou.

Às vezes, a imensidão assusta mesmo.

Eu, que já era toda água por dentro, transbordei.

Você sempre dizia que eu era mais feliz deitada sob o sol, enquanto preferia a sombra.

O verão acabou devagar.

Os dias esfriaram.

A gente também.

Aquele verão que até hoje não sei se era nosso ou só meu.

Mas essa foto é pra te lembrar que eu continuo aqui.

Não olhe para trás, junho 2024. 

Já é quase meio dia.

O sol está forte demais e o que ficou pra trás não me serve mais

.Andei muito, Alice.

Andei por amor, por susto, por medo.

Você me perguntou uma vez se não tinha vontade de voltar.

Voltar não dá.

O corpo até tenta, mas a alma não cabe mais nos mesmos lugares.

Biquíni ridículo, Maio de 1974

 

Não ria de mim.

O biquíni é ridículo e eu sei disso. Mas hoje me senti bonita.

A Marcela disse que eu tava com cara de apaixonada, a Renata riu e tirou essa foto

Mandei revelar essa pra você lembrar de como o sol me deixa.

Não é pra mostrar pra ninguém. Nem pra me esquecer quando o inverno chegar.

Para meu amor, Maio de 2024

 

O mar ainda está aqui.

Muda pouco, sabe?

Uma onda mais alta, outra mais mansa. Como a gente era.

 

Tenho saudades desse tempo mas não trocaria essa pele marcada por nenhuma juventude que não sabia quem era.

Não te escrevi antes porque achei que ia passar.

Passou.

Mas de vez em quando, quando o vento me lambe e a água bate morna, eu ainda penso se você guardou aquela foto minha que te mandei.

A do biquíni ridículo.

A que era só pra você.

Amanda com 7 anos na praia, junho de 2024

 

A gente mal conversou, mas dividimos o sol e, por um instante, o tempo.

Ela parecia não notar que eu existia, mas o jeito como ela balançava os pés, o franzido da testa, o tique no canto da boca… tudo me lembrou de você aos sete anos, Clara.

 

Foi ali que entendi: o tempo não passa.

Ele repete, em outras cores.

Guardei essa foto porque vi o tempo todo de uma vez: o que já fui, o que sou e o que vem depois.

Guarde ela também, um dia ela vai querer saber de onde veio o jeito dela.

Ela ainda não sabe que vai crescer.

Que os joelhos vão doer, que as memórias vão embaralhar, que o mar um dia vai parecer mais frio do que era.

Os amores das férias, janeiro de 2026

 

Aquelas foram as férias onde tudo começou. Os dias seguidos em que nossos corpos se encaixaram como se já se procurassem há tempos.

Nunca mais quisemos dormir separados, seus pés entre os meus, meu nariz no seu pescoço.

A dança que dançávamos à noite um levava, o outro se afogava no colo sendo conduzido.

 

Talvez eu devesse ter deixado você entrar no meu outono, mas já estava machucada de outros amores e era tão intenso quanto as suas particularidades inebriantes.

 

Eu voltei e olho para a cadeira ainda molhada vazia, como se o verão tivesse começado, mas faltasse o calor.

Moça na água, junho de 2024

 

Não sei quem ela é.

Só vi essa moça de longe, andando dentro d’água com um livro na mão, como se o mundo todo coubesse nas páginas que ela lia.

 

Pensei em como a juventude tem essa mania de andar distraída, acreditando que o tempo vai esperar, que os dias sempre caberão em um verão.

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